
“A vida, sem uma meta, é completamente vazia.”
– Séneca
Era uma vez um país chamado Portugal. De Portugal é produzido o povo Português.
Comumente conhecido como “Zé Povinho”.
O Zé Povinho de quatro em quatro anos lembra-se de exigir medalhas. Quando estas não surgem, então o Zé Povinho com os seus olhos entorpecidos, beiços avermelhados e com uma monocelha que só lembra a um cartoon aliado da sua barriga sedentária que ocasionalmente tem de se fazer levantar para a sua habitual degustação de vinho barato decide criticar veemente os atletas que não as conseguiram.
Está na hora de reformar o Zé Povinho. De vez.
Longa é a cultura (ou falta dela) desportista em Portugal, e infelizmente não deixa inveja a muitos.
Tendemos a ser a excepção à regra, acreditando no “e se…”, na nossa modalidade mas principalmente acreditamos em nós.
Decidimos fazer sacrifícios, ter auto-disciplina quase sobre-humana e uma convicção para além dos comuns.
Esses mesmos que nos chamam loucos e malucos completamente obstantes do nosso porquê para fazer o que fazemos.
Não compreendem porque acordamos tão cedo, vamos para a rua quando está tanto frio e tanta chuva, ou porque só podemos comer isto e aquilo deixando para o lado o que realmente gostaríamos de comer.
Não entendem como estamos tantas horas a fazer o que fazemos.
E sabem que mais? Nunca vão entender, e também não o têm de fazer.
Há um preço que pagamos sempre a mais que todos os outros quando queremos ser incomuns dentro dos incomuns.
E custa, Deus sabe que custa.
Muitos de nós tivemos a benção de somente por mero acaso os nossos pais terem tido a preocupação de adicionar uma componente desportiva quando eramos crianças, ou porque eles foram também desportistas ou porque viram algo a mais que nós em tenra idade ainda não compreendíamos.
Ou então a benção de estarmos virados para a expressão física e pedirmos ao nossos pais para nos colocarem a fazer uma atividade que potencialmente era a nossa vocação ou paixão a manifestar-se dentro de nós.
E a tempo ainda conseguimos fazer algo sobre isso.
As minhas condolências vão para aqueles que foram “desperdiçados”. Quantos sonhos podem ter sido mortos ainda antes de nascerem?
Quantos talentos deitados para o lixo. Atletas que podiam ter sido e nunca tiveram sequer a chance de o ser…?
Dizer que é triste seria um eufemismo.
Então e agora que vamos fazer em relação a isso?
Temos um grave desafio cultural e social em relação à atividade física e principalmente à mentalidade retrógrada e diminuta sobre o desporto.
Como estamos tão envolvidos na nossa paixão e nos rodeamos de pessoas que pensam como nós ficamos surdos para os comentários do Zé Povinho. Mas quando por acaso nos deparamos com alguns só nós sabemos o quanto doí.
Vamos identificar o que podia ser diferente:
- Somos dos poucos países europeus que não tem como alicerce um curriculum desportivo no 1º ciclo.
- Quando retiraram a nota de Educação Física para contar para a média de entrada no ensino superior enviaram a mensagem clara que a saúde física e mental não era um requisito fundamental para ter resultados na nossa vida laboral e social.
- A incompatibilidade da vida académica com a vida desportiva.
Quantas vezes já não ouvimos a velha máxima: – “ah sim, epa deixei de fazer ou treinar quando cheguei à faculdade… simplesmente não dava”.
Muito diferente de outros países onde a entrada na faculdade é a continuação e até subida de nível em termos competitivos desportivamente e do desenvolvimento do atleta. - A política e burocracia envolvida nas federações e associações desportivas que atrasam processos simples, demoram anos a pôr as coisas a andar.
Mas pior do que isso são certas pessoas que agem sem escrutínio puxando a brasa à sua sardinha o que faz com que sem ninguém saber (ou querer saber) haja um desperdício enorme de recursos que deviam unicamente ser aplicados ao desenvolvimento dos atletas e organização de provas competitivas. - A mais óbvia é mesmo a falta de infraestruturas necessárias para a pratica de diversas modalidade. Que somente através da paixão de staff técnico e dos atletas é possível praticar.
Esta lista podia continuar, mas penso que todos conseguimos perceber que na sua base estes desafios existem e estão bem assimilados na identidade do Zé Povinho.
No meio disto tudo surgem alguns génios e fenómenos que conseguem aliar o talento ao trabalho duro. E quando se fala em medalhas, é destes que estamos dependentes.
Ou que o Zé Povinho cria dependência. Existem expectativas que raramente existem as condições e recursos para que seja possível uma concretização das mesmas.
Eu lembro que enquanto no Secundário havia um dia de provas de atletismo onde os alunos podiam participar, e caso tivessem bons resultados disputavam o evento do concelho.
Em três anos que participei e tive resultados para disputar o evento do concelho, Dois anos foram cancelados ou por chuva ou por falta de organização. Dois anos desperdiçados por falta de cultura e de vontade.
No terceiro ano finalmente consegui competir, tendo ficado em primeiro numa das provas. Ao perguntar a uma das professoras o que viria a seguir, qual seria a prova que se seguia pois estava um quanto entusiasmado, ela respondeu com alguma confusão e surpresa.
Afirmou que talvez houvesse algo em Lisboa e sim quem ganhou aqui iria de seguida a essa prova.
Prova essa que nunca chegou.
Quantos mais exemplos destes existem nas nossas modalidades?
Soube de um recentemente em que os atletas de uma modalidade tiveram de fazer a prova debaixo da ponte, e não não é no sentido figurativo.
Mais do que o relatar de uma realidade infeliz no nosso país, eu prefiro ser proativo, ser útil e dar um exemplo positivo, dar soluções.
É isto que nós fazemos enquanto atletas, vamos mais além perante as adversidades.
O que podemos fazer? Eis o que eu penso que podemos fazer:
- Incluir a nível nacional a obrigatoriedade de desporto escolar a iniciar no 1º ciclo.
- Revisão de políticas desportivas e programas de desenvolvimento e de identificação de talentos.
- Fortalecer a cultura desportiva desde a base.
- Análise minuciosa ás verbas utilizadas pelas federações afim de evitar desperdícios.
- Retomar a inclusão da disciplina de Ed. Física para contar para a média de entra em universidade. E mais! Ser um requisito de entrada na faculdade a pratica de uma atividade “extracurrícular”.
Acredito que para começar a mudança de cultura, e de desenvolvimento em Portugal estes 5 pontos podem fazer a diferença no nosso crescimento enquanto sociedade civilizada e desenvolvida.
O indivíduo multifacetado é cada vez mais um requisito para singrar nos tempos modernos e avançados em que nos encontramos.
A hora para fazer a diferença para além da nossa paixão à modalidade e à prática desportiva é agora. O melhor momento para plantar uma árvore foi há 20 anos atrás,o segundo melhor tempo é agora.
O melhor momento para mudar a nossa cultura desportiva foi há 20 anos atrás, o segundo melhor momento é agora.
Assim deixo o primeiro passo que podemos dar, uma petição pública para incluir a prática desportiva para os alunos do 1º ciclo.
Para que crescem e se desenvolvam como um todo, para que mais sonhos se concretizem. Para mais paixões, mais lágrimas de felicidade, mais mordidas no ouro e mais vezes se oiça o hino nacional nos grandes palcos, para mais quem sabe um dia tenhamos o privilégio de ter jogos olímpicos realizados em Portugal.
https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT121863
Aos meus colegas atletas, e aos que são olímpicos ou já o foram, um muito obrigado. Com as condições e adversidades que superaram para chegar tão longe, só a vossa presença nos jogos é digna de pódio.
Cada representação, cada diploma, cada bronze, prata e ouro é a mais alta exibição do espírito de perseverança a que um português pode almejar.
Atentamente,
Atleta.
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