Athletes sprinting on track during men's 400m final at Paris 2024 Olympic Games

Carta aberta aos Atletas portugueses

Athletes sprinting on track during men's 400m final at Paris 2024 Olympic Games

“A vida, sem uma meta, é completamente vazia.”
– Séneca

Era uma vez um país chamado Portugal. De Portugal é produzido o povo Português.
Comumente conhecido como “Zé Povinho”.
O Zé Povinho de quatro em quatro anos lembra-se de exigir medalhas. Quando estas não surgem, então o Zé Povinho com os seus olhos entorpecidos, beiços avermelhados e com uma monocelha que só lembra a um cartoon aliado da sua barriga sedentária que ocasionalmente tem de se fazer levantar para a sua habitual degustação de vinho barato decide criticar veemente os atletas que não as conseguiram.
Está na hora de reformar o Zé Povinho. De vez.

Longa é a cultura (ou falta dela) desportista em Portugal, e infelizmente não deixa inveja a muitos.
Tendemos a ser a excepção à regra, acreditando no “e se…”, na nossa modalidade mas principalmente acreditamos em nós.
Decidimos fazer sacrifícios, ter auto-disciplina quase sobre-humana e uma convicção para além dos comuns.
Esses mesmos que nos chamam loucos e malucos completamente obstantes do nosso porquê para fazer o que fazemos.
Não compreendem porque acordamos tão cedo, vamos para a rua quando está tanto frio e tanta chuva, ou porque só podemos comer isto e aquilo deixando para o lado o que realmente gostaríamos de comer.
Não entendem como estamos tantas horas a fazer o que fazemos.
E sabem que mais? Nunca vão entender, e também não o têm de fazer.

Há um preço que pagamos sempre a mais que todos os outros quando queremos ser incomuns dentro dos incomuns.
E custa, Deus sabe que custa.

Muitos de nós tivemos a benção de somente por mero acaso os nossos pais terem tido a preocupação de adicionar uma componente desportiva quando eramos crianças, ou porque eles foram também desportistas ou porque viram algo a mais que nós em tenra idade ainda não compreendíamos.
Ou então a benção de estarmos virados para a expressão física e pedirmos ao nossos pais para nos colocarem a fazer uma atividade que potencialmente era a nossa vocação ou paixão a manifestar-se dentro de nós.
E a tempo ainda conseguimos fazer algo sobre isso.

As minhas condolências vão para aqueles que foram “desperdiçados”. Quantos sonhos podem ter sido mortos ainda antes de nascerem?
Quantos talentos deitados para o lixo. Atletas que podiam ter sido e nunca tiveram sequer a chance de o ser…?
Dizer que é triste seria um eufemismo.

Então e agora que vamos fazer em relação a isso?
Temos um grave desafio cultural e social em relação à atividade física e principalmente à mentalidade retrógrada e diminuta sobre o desporto.
Como estamos tão envolvidos na nossa paixão e nos rodeamos de pessoas que pensam como nós ficamos surdos para os comentários do Zé Povinho. Mas quando por acaso nos deparamos com alguns só nós sabemos o quanto doí.
Vamos identificar o que podia ser diferente:

  • Somos dos poucos países europeus que não tem como alicerce um curriculum desportivo no 1º ciclo.
  • Quando retiraram a nota de Educação Física para contar para a média de entrada no ensino superior enviaram a mensagem clara que a saúde física e mental não era um requisito fundamental para ter resultados na nossa vida laboral e social.
  • A incompatibilidade da vida académica com a vida desportiva.
    Quantas vezes já não ouvimos a velha máxima: – “ah sim, epa deixei de fazer ou treinar quando cheguei à faculdade… simplesmente não dava”.
    Muito diferente de outros países onde a entrada na faculdade é a continuação e até subida de nível em termos competitivos desportivamente e do desenvolvimento do atleta.
  • A política e burocracia envolvida nas federações e associações desportivas que atrasam processos simples, demoram anos a pôr as coisas a andar.
    Mas pior do que isso são certas pessoas que agem sem escrutínio puxando a brasa à sua sardinha o que faz com que sem ninguém saber (ou querer saber) haja um desperdício enorme de recursos que deviam unicamente ser aplicados ao desenvolvimento dos atletas e organização de provas competitivas.
  • A mais óbvia é mesmo a falta de infraestruturas necessárias para a pratica de diversas modalidade. Que somente através da paixão de staff técnico e dos atletas é possível praticar.

Esta lista podia continuar, mas penso que todos conseguimos perceber que na sua base estes desafios existem e estão bem assimilados na identidade do Zé Povinho.

No meio disto tudo surgem alguns génios e fenómenos que conseguem aliar o talento ao trabalho duro. E quando se fala em medalhas, é destes que estamos dependentes.
Ou que o Zé Povinho cria dependência. Existem expectativas que raramente existem as condições e recursos para que seja possível uma concretização das mesmas.

Eu lembro que enquanto no Secundário havia um dia de provas de atletismo onde os alunos podiam participar, e caso tivessem bons resultados disputavam o evento do concelho.
Em três anos que participei e tive resultados para disputar o evento do concelho, Dois anos foram cancelados ou por chuva ou por falta de organização. Dois anos desperdiçados por falta de cultura e de vontade.
No terceiro ano finalmente consegui competir, tendo ficado em primeiro numa das provas. Ao perguntar a uma das professoras o que viria a seguir, qual seria a prova que se seguia pois estava um quanto entusiasmado, ela respondeu com alguma confusão e surpresa.
Afirmou que talvez houvesse algo em Lisboa e sim quem ganhou aqui iria de seguida a essa prova.
Prova essa que nunca chegou.
Quantos mais exemplos destes existem nas nossas modalidades?
Soube de um recentemente em que os atletas de uma modalidade tiveram de fazer a prova debaixo da ponte, e não não é no sentido figurativo.

Mais do que o relatar de uma realidade infeliz no nosso país, eu prefiro ser proativo, ser útil e dar um exemplo positivo, dar soluções.
É isto que nós fazemos enquanto atletas, vamos mais além perante as adversidades.

O que podemos fazer? Eis o que eu penso que podemos fazer:

  • Incluir a nível nacional a obrigatoriedade de desporto escolar a iniciar no 1º ciclo.
  • Revisão de políticas desportivas e programas de desenvolvimento e de identificação de talentos.
  • Fortalecer a cultura desportiva desde a base.
  • Análise minuciosa ás verbas utilizadas pelas federações afim de evitar desperdícios.
  • Retomar a inclusão da disciplina de Ed. Física para contar para a média de entra em universidade. E mais! Ser um requisito de entrada na faculdade a pratica de uma atividade “extracurrícular”.

Acredito que para começar a mudança de cultura, e de desenvolvimento em Portugal estes 5 pontos podem fazer a diferença no nosso crescimento enquanto sociedade civilizada e desenvolvida.
O indivíduo multifacetado é cada vez mais um requisito para singrar nos tempos modernos e avançados em que nos encontramos.

A hora para fazer a diferença para além da nossa paixão à modalidade e à prática desportiva é agora. O melhor momento para plantar uma árvore foi há 20 anos atrás,o segundo melhor tempo é agora.
O melhor momento para mudar a nossa cultura desportiva foi há 20 anos atrás, o segundo melhor momento é agora.

Assim deixo o primeiro passo que podemos dar, uma petição pública para incluir a prática desportiva para os alunos do 1º ciclo.
Para que crescem e se desenvolvam como um todo, para que mais sonhos se concretizem. Para mais paixões, mais lágrimas de felicidade, mais mordidas no ouro e mais vezes se oiça o hino nacional nos grandes palcos, para mais quem sabe um dia tenhamos o privilégio de ter jogos olímpicos realizados em Portugal.

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT121863

Aos meus colegas atletas, e aos que são olímpicos ou já o foram, um muito obrigado. Com as condições e adversidades que superaram para chegar tão longe, só a vossa presença nos jogos é digna de pódio.
Cada representação, cada diploma, cada bronze, prata e ouro é a mais alta exibição do espírito de perseverança a que um português pode almejar.

Atentamente,
Atleta.


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