Líder humilde

“O poder dos pensamentos pode causar-te doença ou a cura”

– Ibn Sina

Humildade é uma característica vital para qualquer líder. Não só para qualquer líder mas também para qualquer ser humano que queira prosperar e deixar uma marca positiva no seu legado.
Sem humildade não aprendemos, não evoluímos, não crescemos e não superamos. O líder humilde parece sempre estar em vantagem para aqueles que pouco conhecem o que é ser humilde. Parece sempre favorecido, sempre um passo à frente, e as pessoas com pouca humildade ainda se questionam- “como é que é possível?!” Mesmo quando a resposta é óbvia. E é óbvia pois facilmente reconhecemos os seres humildes.

Mas para não haver confusões, vamos desmistificar o que quer dizer ser o humilde, e claro é sempre aberto a interpretação, no entanto há interpretações mais empoderadoras que outras, mas eu deixarei a minha interpretação pessoal do que significa ser humilde.

Quando era miúdo, o significado que captava de familiares sobre ser humilde dependendo de certas situações, era algo inferior, mais semelhante a “submissão” perante alguém, era o baixar a cabeça e não responder, não ter iniciativa, não iniciar confronto, ou não se defender, simplesmente aceitar e dizer “é assim a vida, é assim que Deus quer”.
Esta foi a interpretação que fui captando por parte da vida avó. E que quando analiso como foi criada, de onde veio, e as suas crenças religiosas, faz bastante sentido ela pensar assim, pois foi assim que foi ensinada na sua juventude. Aliás há uma associação comummente de quem é católico entre “humildade” e passividade ao que nos é dado por Cristo. Especialmente de quem cresceu no tempo em que estava instalada a ditadura em Portugal. Uma das parelhas do estado novo era a aliança com a igreja católica, ainda me lembro da imagem dos livros de história da escola, onde mostrava as fases de desenvolvimento que o estado utilizou para instaurar a ditadura.
Era um casamento de conveniência.
Se falarmos com alguém que cresceu nesses tempos, conseguimos perceber que sua interpretação de humilde não foge muito ao que referi também por essas razões.

A interpretação que tenho sobre humildade por parte de outros familiares próximos, não é muita, até porque era praticamente inexistente, não me recordo de ser referido, nem explicado, e muito menos exemplificado. Mas a parte positiva é que ajudou a perceber o que não era. De certeza absoluta que não era o que era dito nem os comportamentos que assistia.
Mas então o que realmente significa humildade? Vejamos no dicionário:
– “Qualidade de humilde; capacidade de reconhecer os próprios erros, defeitos ou limitações; Sentimento de inferioridade = Rebaixamento; Demonstração de respeito, submissão; Ausência e luxo ou sofisticação; Pobreza e penúria
Via: humildade – Dicionário Online Priberam de Português

A palavra humildade vem da palavra latina  humilitas , que por sua vez tem a raiz húmus, que significa terra em latim. Com relação a essa consideração, a palavra humildade tem a ver com nossa capacidade de aceitar nossas limitações e baixeza. Também está relacionado à apresentação e desempenho.
Via: Humildade – Conceito, origem e humildade como virtude (conceitosdomundo.pt)

“A única verdadeira sabedoria é sabermos que não sabemos nada”

– Sócrates

Agora a minha interpretação, de uso de acordo com as minhas experiências e aprendizagens:
Começando pelo que concordo e é universal para qualquer líder que queira ter sucesso, qualquer líder em ordem para crescer, evoluir, e liderar a bom porto as suas pessoas tem(!) reconhecer os seus erros, defeitos ou limitações.
É essencial haver uma introspeção continua ao próprio eu. Todos os dias fazer as questões poderosas a si mesmo, todos os dias fazer a analise dos seus contactos, comunicações, acções e interações com outros seres, com os seus objectivos com as suas crenças e valores.
Fui a minha melhor versão?; O que podia ter feito melhor?; Isto está de acordo com os meus valores?; Isto vai ajudar-me a chegar onde quero?; O que me irá custar se não mudar?; O que isto significa?; O que aprendi?; O que vou fazer com o que aprendi?; Quem posso ajudar?; O que quero fazer?; O que quero ser?
São questões práticas, que devemos debater com nós próprios, de preferência com papel e caneta. Não temos de fazer todas estas questões diariamente, duas ou três ajudam a lembrar-nos do nosso propósito, e principalmente ajudam-nos a ser humildes. É fulcral lapidar, limar e polir o nosso carácter constantemente.
Isto obviamente não é para qualquer um. Mas eu não escrevo isto para o “qualquer um”, escrevo para o ou a líder, que quer fazer algo mais do que simplesmente existir queimando oxigénio e cruzando os dedos esperando que algo melhor possa acontecer. Não! Um excelente líder sabe que o seu desenvolvimento é que irá fazer crescer e evoluir o seu empreendimento, a sua equipa, o seu negócio, os seus alunos e todas as pessoas com quem entra em contacto durante a sua curta estadia neste mundo.
O excelente líder sabe que está destinado a algo mais que mediocridade e está disposto a utilizar todas as ferramentas necessárias, principalmente a “ferramenta” tão importante como a humildade.

Mas e então ser humilde é realmente ser pobre ou andar na penúria? Só se é humilde com pouca posse monetária ou material? É estranho pois muitas das pessoas sem possibilidades ou posses que conheci até eram das mais arrogantes e sabichonas que conheci. Achavam que tinham a razão absoluta das coisas, é assim porque é assim! A culpa era sempre de algo ou alguém, se calhar essa era a razão de serem “pobres”.
Alguém assim vem-te à memória? A mim sim, várias.
E o rico, já não pode ser humilde pois tem posses? Ora bem, conheço pessoas com posses que dão vontade de ficar à conversa horas afim, com histórias incríveis, de como se tornaram quem são, e muitas vezes essas histórias acabam (ou começam) com: “Ainda tenho muito a aprender”. É fascinante.
Claro que há o inverso, pessoas pobres com um coração gigante, e aqueles ricos típicos de cliché de filme que só não se cospe em cima por sermos superiores em termos de classe. Vemos isto principalmente naqueles que não adquiriam a sua riqueza, foi dada, herdada ou de uma forma geral nunca pagaram o preço para a adquirir, acontece o universo sem dúvida trabalha de algumas maneiras misteriosas.

Então e o sentimento de inferioridade ou rebaixamento? Só somos humildes se sentirmos que o nosso potencial está abaixo dos outros? Temos de sentir também que somos e merecemos menos que outrem?
Não me parece que os líderes mais eficientes que este mundo já conheceu, usem essa premissa. Pelo contrário, esses líderes não aceitaram de todo as condições em que se encontravam, sabiam que se podiam tornar mais e melhor, e lutaram com todas as suas forças para saírem do paradigma em que se encontravam
Qualquer líder de uma empresa se se sentir inferior ou se rebaixar perante a concorrência rapidamente arrasa o seu negócio. Ou o treinador que se sente inferior aos restantes, é mesmo esse o líder que queremos a dirigir a equipa? Não seria o treinador da minha equipa de certeza.

E o líder que não tem ou usa o luxo ou sofisticação? Imagina um líder hoje dizer que não utiliza a Internet, ou o material de topo de gama para a sua equipa vencer no mercado pois isso os tornaria pouco humildes? Estranha visão essa… Ou o líder militar que não utiliza as armas sofisticadas para combater, proteger e defender o seu povo de invasores… Dá que pensar no desastre que seria.

E a submissão? Sim vamos imaginar que Salgueiro Maia se submetia à ditadura, e pronto tem de ser assim pois tem de ser humilde…
Ou William Wallace, ou Robert the Bruce simplesmente se submetessem à crueldade e opressão dos ingleses, George Washington, Samuel Adams e John Hancock fossem submissos à opressão da coroa britânica, ou Mahatma Ghandi não lutasse pela independência da Índia, seria Ghandi não humilde?
O ponto que quero passar é que enquanto líder, vais ter de muitas vezes lutar contra algo, te impor ou provocar a mudança no status quo, e não é por isso que deixas de ser humilde ou ter humildade.

Como referi, a interpretação de humildade é aberta, qualquer pessoa é livre de ter a sua.
A minha é simples, humildade é saber que podemos estar em constante crescimento. É saber que no final do dia somos humanos tal como todas as outras pessoas. É reconhecer onde, quando e como erramos, solucionar esse erro e aprender com o mesmo, e ter a coragem de seguir em frente. Humildade é expandir as nossas limitações, é fazer tornar o desconfortável em confortável e nunca parar. É eliminar defeitos pois sabemos que a longo prazo nada nos servem e só nos prejudicam, humildade é também respeitar o próximo, aprimorar a comunicação com todo o ser humano pois todos viemos despidos a este mundo, e quando nos vamos, vamos sem nada para o outro mundo. Humildade é controlar o teu ego e não deixares o teu ego controlar-te.

Dou graças e sinto-me abençoado pelas minhas experiências, pois no momento certo, ser humilde, ou ter tido humildade (pois a humildade como qualquer outra skill tem de ser aprimorada ao longo do tempo, se não usamos a perdemos) salvou-me a vida, ou pelo menos acredito que o fez no contexto em que vos vou contar.
O ano passado, dois dias depois de ter chegado à Finlândia, tive a oportunidade de dar um mergulho num lago perto do local onde estive a viver. Havia uma plataforma a uns 100m da costa dentro do lago, e estavam lá algumas pessoas a mergulhar e a nadar até lá, então eu e mais 3 amigos decidimos ir para dar umas braçadas, o problema é que não sou dos melhores nadadores, sei nadar, e a longa distância não é de todo o meu forte. A escassos metros da plataforma já sem pé, comecei a sentir fadiga e cansaço, já respirava pela boca, e senti as fases iniciais de pânico, dei aos braços o máximo que consegui para desesperadamente chegar à plataforma, lá o consegui fazer… estava exausto… Para além do desafio que acabei de descrever deparei-me logo com outro, eu tinha de voltar.
Fiquei vários minutos na plataforma a descansar, entretanto os meus amigos voltaram para terra, e eu continuava na plataforma. Fiz uma tentativa para voltar, mas depois de uns 10 ou 15 metros voltei para trás, estava ainda mais exausto, que dilema me enfiei, estava realmente a ficar assustado.
Foi aqui que me lembrei do que li, das minhas experiências e do que me fez chegar onde tinha chegado.
Lembrei-me em particular de um dos capítulos do livro Extreme Ownership do Jocko Willink, sobre controlar o ego, e sobre o relato de humildade que um dos seus subordinados teve durante uma situação bastante tensa na guerra do Iraque. Decidi que aí estava a lição. Estava uma senhora com uma prancha de padel a dar umas remadas próxima de mim, e decidi pedir ajuda, a senhora pensou que eu estivesse a brincar, e seguiu caminho mas passados uns 15 minutos ela voltou e eu disse-me que estava a falar a sério, e que não conseguia voltar pelo meu “próprio pé”. A senhora entendeu que eu não estava a fazer o pedido só porque sim, e deixou-me ir segurado à prancha enquanto ela remava com algum esforço pois agora o meu peso à mistura. Eu fui ajudando dando às pernas o máximo que conseguia, e quando possivelmente eu pensei que já podia ter pé e deixar a senhora ir à sua vida, tento pôr os pés em terra, e quando tento… cãibras nas duas pernas como nunca tinha dito, e aí me apercebi de como ter sido humilde me salvou a vida, se eu tivesse tentado ir sozinho a minha aventura na Finlândia teria sido substancialmente curta. A água dos lagos é diferente da de piscina ou do mar, é mais “pesada” tem mais sedimentos, e é mais densa, um pormenor que aprendi com um grande susto.
Quando finalmente cheguei à minha toalha, depois de agradecer com todo o coração à senhora pela ajuda, comecei a pensar nas noticias sobre a minha morte, o que as pessoas que me amavam iriam sentir e em como não iria cumprir os objectivos de vida que tinha, doeu, mas ao mesmo tempo encheu o meu coração de gratidão por estar a salvo e por sim, ter sido humilde e fazer algo contra o qual lutei a maior parte da minha vida: Pedir ajuda.

Existem qualidades, características e capacidade que um líder deve desenvolver, principalmente aquelas que são mais fracas ou mais difíceis, pois as fortes saem naturalmente, as outras não. É essa a minha filosofia.
Sem dúvida humildade era uma delas para mim, talvez pela minha infância, talvez por outras razões, estou grato pela lição e continuo a utiliza-la na busca da concretização dos meus objectivos. Fica a sugestão para ti se quiseres realmente ser um líder de excelência.

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